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CSB na Folha de São Paulo.

25/10/2004
Corpo de Socorristas do Brasil atua em situações de emergência.

     Atenção e disposição a ajudar são as palavras de ordem dos mais de cinco mil homens e mulheres que, nos últimos 12 anos, se envolveram com as atividades do Corpo de Socorristas do Brasil, uma organização não-governamental, formada por profissionais voluntários das mais variadas áreas, desde médicos e bombeiros, até engenheiros, estudantes e donas de casa. A iniciativa, que surgiu a partir de um grupo de profissionais da área de segurança, busca preparar as pessoas para atuarem em situações de emergência, com técnicas de primeiros socorros até o momento da chegada da assistência, prevenindo acidentes diversos e preservando a vida.

     Os socorristas, portanto, não atendem ocorrências, já que isso é função de órgãos municipais e estaduais, como o Corpo de Bombeiros. Mas colaboram quando se deparam com uma vítima, fazem as primeiras assistências e depois acompanham a pessoa junto à equipe de resgate profissional até o momento em que a vítima for liberada e estiver salva ou sob cuidados médicos. "A gente brinca que cuidamos dos gatinhos enquanto os bombeiros salvam vidas", afirma humorado Moisés Gomes da Silva, bombeiro e diretor sênior do Corpo de Socorristas.

     Isso porque, em situações de calamidade pública como uma grande enchente, por exemplo, os socorristas se preocuparão com aquela criança que estava sozinha em casa, e ficou correndo na água e que pode estar contaminada e talvez até passou o dia inteiro sem comer qualquer coisa. Os voluntários procuram ainda unir esforços para recuperar o que os moradores perderam e até a separar doações, como roupas para serem entregues aos desabrigados. "Ou seja, vamos oferecer ajuda com uma equipe totalmente treinada para casos que hoje os órgãos não fazem. O trabalho deles é outro", completa Moisés.

     Para estarem preparados a atuar em situações como esta os socorristas passam por um cuidadoso treinamento. O primeiro passo é a seleção inicial, que inclui entrevista, exames psicológicos e de saúde. Os interessados precisam ainda ter pelo menos 18 anos e estar trabalhando ou estudando. A partir daí, durante um ano, eles participam do Curso de Formação de Oficiais Voluntários, com aulas de técnicas de atendimento pré-hospitalar, defesa pessoal, prevenção e combate a incêndio, primeiros socorros, e até noções de direito, cidadania, anatomia e administração do Corpo de Socorristas.

     Os encontros são realizados uma vez por mês, em um dos nove espaços de formação espalhados pela Grande São Paulo. A organização conta ainda com equipes atuando em Extrema, subdistrito de Camanducaia (MG) e já começou a dar os primeiros passos também no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Todos os locais são cedidos por igrejas, escolas ou entidades sociais.

     Com essa formação, os socorristas ficam aptos a avaliar com segurança o local do acidente e os sinais vitais da vítima, utilização correta das manobras para liberação de vias aéreas e procedimentos para a ventilação da vítima e das técnicas de reanimação cardiopulmonar, além do controle de hemorragias e orientação sobre técnicas preventivas de traumas, casos clínicos e acidentes domésticos, entre outros. Esses conhecimentos foram essenciais para Edmar Costa Junior, socorrista pleno e tesoureiro da ONG, para ajudar um morador de rua que havia sido atropelado.

     Edmar percebeu uma grande movimentação na rua e um grupo de pessoas em volta do homem caído no chão. "Nesta hora analisei os sinais vitais e tentei mantê-lo com consciência. Acionei também o sistema de emergência correto para aquela região. Foi aí que percebi que precisava saber lidar também com a prevenção, que é me localizar no espaço da cidade e conhecer qual o procedimento mais rápido, se há uma base de policiamento ali ou não, já que, naquela hora, as pessoas que estavam no local não sabiam nem ao certo qual número de emergência haviam acionado", conta ele, recordando também que teve de aprender a lidar com o pânico que bateu no momento, já que ainda estava em treinamento naquela época.

     Edmar acredita ainda que temas abordados durante as aulas, como noções de direito e cidadania, são essenciais nestas situações para que os socorristas saibam a maneira correta de agir. "Isso sana nossas dúvidas diante do acidente. Até onde eu posso agir? Como eu devo me portar diante de uma autoridade? Até que ponto ela pode coagir? São coisas importantes não só para nossa atuação, mas na vida. Afinal, isso é a base de tudo", comenta o socorrista, que chegou até a organização há dois anos, depois de se deparar com uma situação em que seu colega precisava de atendimentos médicos urgentes, mas ele não tinha conhecimentos de primeiros socorros e a assistência demorou a chegar no local. Seu amigo acabou falecendo no hospital.

     Todos os procedimentos adotados pelo Corpo de Socorristas respeitam o protocolo americano de atendimento pré-hospitalar que, segundo Moisés, é o mais avançado, pois são pioneiros nestas técnicas. "Hoje, a gente faz aqui no país algo que eles deixaram de fazer há 30 anos. Só para se ter idéia, o socorro lá chega em três minutos. Aqui, a média é de oito. O que falta é investimento e conhecimento das pessoas sobre estes atendimentos. Desta forma, não exigem mudanças. Isso ainda deixa muito a desejar no país", comenta.

     Para suprir essa falta de informação é que a organização definiu como atuação central também a prevenção, procurando melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Os socorristas realizam palestras em escolas, empresas, comunidades, além de oferecerem mais de 2 milhões de vales cursos gratuitos (basta acessar o site) sobre primeiros socorros, com duração de quatro horas. Edmar é um dos instrutores e destaca que, depois das palestras, muitas crianças e pais ligam para contar como conseguiram socorrer um parente ou como se portaram frente a situações de emergência. O socorrista conta que em diversos momentos os voluntários são vistos como heróis. "Mas, para mim, isso só existe em história em quadrinhos", ironiza Edmar.

     Brincadeiras à parte, Moisés ressalta a importância destes conhecimentos básicos na vida das pessoas, que poderiam evitar finais trágicos em caso de pequenos acidentes, como queimaduras, falta de ar e engasgamento. "O agravante é que, normalmente, ninguém dentro da casa está preparado. Fica todo mundo apavorado e acabam não fazendo nada. Com ações simples, você consegue aumentar a chances de sobrevida das pessoas", comenta o diretor. Em sua opinião, primeiros socorros e noções de direito deveriam fazer parte do currículo escolar. "A calamidade no Brasil é cultural, isso sim".

     O Corpo de Socorristas pretende ampliar ainda mais o número de participantes, com a proposta de dobrar o número de voluntários. No entanto, falta apoio financeiro para as ações. Exemplo disso é que, durante dois anos, no posto de Santo Amaro, os socorristas ofereceram cursos de formação em cidadania e de computação, digitação, noções de mecânica e eletricidade, anatomia e fisiologia básica, vida preventiva, dentre outros, para cerca de 600 adolescentes, mas as atividades tiveram de parar por falta de verba. Hoje, a entidade se mantém com doações tanto dos próprios voluntários ou empresas parceiras, que recebem o título de: "Empresa que valoriza a vida".

     Nestes 12 anos de trabalho, o Corpo de Socorristas tem conseguido também ampliar a sua rede de parcerias. Os voluntários contam com apoio do 911 do Canadá e de Chicago, principalmente para facilitar compra de equipamentos e materiais necessários para os cursos de formação e atendimento. Em breve, Portugal será mais um país a compartilhar suas experiências nesta área com o Corpo de Socorristas, com um respaldo no treinamento de voluntários. A Organização das Nações Unidas (ONU) também se mostrou interessada em discutir uma parceria, com a transferência de recursos, para a atuação dos socorristas em calamidades e catástrofes.

Daniele Prósepero

Fonte: FOLHA ONLINE

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